Um exemplo de diversificação económica
Fonte: Novo Jornal

Fonte: Novo Jornal


Janeiro 15, 2016 
—A aposta do Governo na diversificação tem vindo a ser assumida pela classe empresarial de forma ainda tímida, o que faz antever que a dependência ao petróleo perdurará por longo tempo. Mas várias acções têm vindo a processar-se neste sentido e um dos mais recentes exemplos é a Aceria de Angola, uma fábrica de transformação de aço recentemente inaugurada.

João Simão Pedro é um jovem operador de produção, de 28 anos, que labora na Aceria de Angola (ADA) há dois meses. Trabalhou antes numa britadeira nos arredores da província do Bengo, tendo aprendido a manusear o equipamento automático a partir de uma cabine de controlo.
Ao NJ confessou que o trabalho decorre da melhor maneira, motivado pela “força de vontade” que o leva a aperfeiçoar-se no trabalho quotidiano que exerce e que consiste em observar a cada momento a saída de lingotes de aço, que designa de “palanquilhas” e que, em caso de anomalia no funcionamento das máquinas, o leva a comprimir um botão e interromper as operações.

Já houve anomalias ligeiras, mas dificilmente temos falta de energia para alimentar as máquinas, pelo que o trabalho decorre sem sobressaltos, conta João Pedro.

Referiu não ter sido submetido a uma formação prévia, tendo principiado na fábrica, embora na ocupação anterior funcionasse também numa cabine idêntica. Mas aqui a produção é ferro, existindo por isso uma grande diferença, o que, com a força de vontade que tem, o levam a conseguir verificar onde existem obstáculos. Outro jovem profissional desta lide é Ariclenes Mascarenhas, de 25 anos, antigo operário da fábrica de cimento do Kwanza-Sul. Depois de ali sair por razões que escusou especificar, ficou desempregado e encontrou na ADA um novo ganha-pão também com a função de operador na área de laminação.

Estou aqui há dois meses e o trabalho decorre de maneira perfeita. Estamos numa fase inicial, que é como todas as outras muito cansativa, assinala Mascarenhas,

para quem assimilar a função é o objectivo principal e tem sido fácil, porquanto os instrutores são trabalhadores expatriados que falam espanhol, acrescendo ao facto de ter feito uma actualização na língua inglesa.

Daqui para a frente espero que possamos produzir a 100 por cento e isso só vai ocorrer se trabalharmos mais, justificou o jovem

que concluiu o curso médio de mecânica e frequenta actualmente o curso de engenharia mecânica.
Já o jovem Francisco de 29 anos, operador da cabine vocacionada para a produção de varões bem como para o controlo de eventuais obstáculos, entrou para o projecto há três anos como pedreiro, vindo no Hospital Central do Bengo.

Tenho aprendido muito e não tenho dificuldades, enfatizou o jovem que reside na Barra do Dande.

Outra jovem profissional, Maria dos Santos Mateus, de 27 anos, operadora de grua, é uma das duas únicas mulheres que labutam na fábrica. Antiga professora no ensino geral estatal, por escassez de empregos enveredou pela operação de uma grua que movimenta sob acção de quatro portentosos ímanes, cerca de 10 toneladas de aço. Mãe de dois filhos, confidenciou ao NJ que no princípio foi difícil a sua adaptação à nova ocupação, mas agora domina plenamente a actividade.

O que ganho aqui dá para remediar”, remata Maria.

ANGOLANIZAÇÃO
Nota de realce tem a ver com facto de, nesta fábrica, ao lado de cada expatriado, existir um angolano a receber formação.

Isto não se aprende na escola, aprende-se aqui na fábrica, no dia-a-dia, refere o nosso cicerone,

que é o director de produção, o veterano espanhol de origem basca, Sebastian Zubizarretta, que, numa visita guiada ao empreendimento, desliza falando amiúde sobre a produção e o actual momento da empresa.

Temos uma equipa que funciona sozinha. Estamos a trabalhar de segunda a sábado, das 6 às 18 horas, uma vez que não temos mais pessoas para operar à noite, nem ao domingo, embora o objectivo seja alcançar cinco turnos em todo o ano, salientou.

ADA POR DENTRO

A reportagem do NJ foi nesta terça-feira, 11, constatar in loco o processo produtivo da Aceria de Angola, situada a cerca de 70 quilómetros a norte de Luanda, na comuna do Dande, vocacionada para a fabricação de varões de aço, um complexo inaugurado a 15 de Dezembro último, um mês depois da sua abertura oficial, actualmente 50% operacional desde Outubro.

Num investimento de 300 milhões de dólares, a unidade fabril tem a capacidade de absorver toda a sucata e outro material ferroso existente no País. Comporta uma linha de laminação que se dedica à produção de varões de aço destinados à construção civil, cuja matéria-prima consiste em lingotes também de aço, ainda não produzidos pela fábrica, porque esta área não se encontra concluída, devendo entrar em actividade entre Fevereiro ou Março deste ano.

Os lingotes de aço, que são actualmente transformados em varões, são importados do Brasil e da China para que o processo produtivo não sofra interrupções, existindo na fábrica uma reserva de matéria-prima que permite produzir durante três meses consecutivos.

As 300 mil toneladas de varões de aço já produzidos mantêm-se armazenadas, aguardando pela certificação por parte de uma empresa portuguesa de análise de qualidade, a quem compete avalizar a sua comercialização. Desde já, o director de produção avança que o produto acabado é de muito boa qualidade.
 

Trabalho nisto há mais de 30 anos e nunca vi um produto de boa qualidade como este, sublinhou Zubizarreta

dirigindo-se ao laboratório local de análise de qualidade, que detém uma espécie de prensa que serve para medir a elasticidade e capacidade de resistência do varão de aço produzido.

CAMBIAIS PODEM INVIABILIZAR PROJECTO

Sebastian Zubizarreta considera a falta de cambiais o maior empecilho da fábrica, cuja ausência poderá colocar em risco a continuidade do projecto, centrado na diversificação da economia.

Precisamos de adquirir no estrangeiro não só matéria-prima, mas também efectuar pagamentos de salários aos técnicos expatriados e comprar peças de reposição, e se não dispusermos de divisas, a fábrica, que custou muito dinheiro, não poderá sobreviver”, frisou.

O PROCESSO PRODUTIVO

TUDO COMEÇA pela fundição de 25 toneladas de aço líquido em cada um dos três fornos disponíveis, estando dois operacionais e um em manutenção. Através de um carrinho, a sucata é encaminhada para o forno com 5,5 metros cúbicos de volume destinados às 25 toneladas de aço, correspondentes a 3,4 metros cúbicos.
Segue-se a fase de aquecimento que chega a atingir mil e 650 graus centígrados. Logo depois o aço, já em estado líquido, é introduzido através de uma grande colher com destino à área de metalurgia. Aqui, depois de verificado os níveis de carbono, magnésio e silício de acordo com as normas estabelecidas, o aço é remetido para uma estação de oxidação, onde se processa a redução do nível de carbono, mediante a queima deste último componente.

Cada forno necessita de 80 minutos para fundir o aço, aliás em cada 40 minutos fundem-se 25 toneladas deste produto, sendo que 35 minutos são precisos para este processo, enquanto outros cinco minutos são absorvidos no esvaziamento dos recipientes contendo aço líquido.

Depois disso, passa-se para a recolha das amostras de aço, com a utilização de silício, magnésio e ferro silício. Com o uso de cal retira-se o enxofre e obtém-se o ferro, mediante o aquecimento através de eléctrodos que alcança uma temperatura na ordem dos 1.600 graus centígrados. Daqui transita para uma outra área, com o auxílio de uma grua, para converter a quantidade de aço líquido(25 toneladas) em lingotes. Num piso mais acima, situa-se um equipamento que é acoplado ao recipiente contendo aço líquido, que conta com uma válvula que se abre vertendo para um sistema de arrefecimento com água sob forte pressão, dando origem ao lingote de aço.

Por sua vez, este produto é introduzido noutro equipamento, onde por minuto são produzidos três metros, com o diâmetro de 130 milímetros, que é cortado sob a acção do oxigénio, num processo inteiramente automático.
Após isso, o lingote, que pesa 765 quilos, sendo que um litro de aço chega a pesar 7,8 quilos, como matéria-prima segue para a área de laminação, cuja finalidade é produzir varões de aço utilizados na construção civil. Ali se coloca num forno que aquece até 100 graus centígrados, um processo que passa de lingote a lingote como se estivesse a produzir pão.
 
300 MIL TONELADAS/DiA

Presentemente a ADA produz varões de aço de 12 milímetros, o mais procurado no mercado, e a fábrica é controlada por três cabines de computação, onde os operadores intervêm na verificação de todo o processo produtivo.

Com 80 trabalhadores distribuídos pelas áreas de produção e manutenção, produz diariamente 300 toneladas de produto acabado, o que se considera bom no começo e conta com 40 mil toneladas de varão de ferro de 12 milímetros já fabricados, cuja comercialização depende agora da certificação pela referida empresa portuguesa.
Comporta um grupo de geradores como fonte alternativa de energia eléctrica composta por 16 geradores, neste momento fora de serviço, porque a fábrica está a ser abastecida pela rede eléctrica proveniente da barragem hidroeléctrica das Mabubas, situada a 50 quilómetros.

Com a capacidade de produzir 5 megawatts de energia eléctrica, estes geradores podem assegurar, segundo o responsável, o fornecimento de energia à rede eléctrica geral, mas com a subida dos preços dos combustíveis torna-se inviável essa opção. Detém também uma estação de tratamento e abastecimento de água potável que provem do rio Dande e que abastece igualmente as comunidades circunvizinhas do projecto.

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